Being Keanu Reeves

O DIA EM QUE A TERRA PAROU

O DIA EM QUE A TERRA PAROU
("The Day the Earth Stood Still")
(Ficção Científica)
Direção: Scott Derrickson
Elenco: Keanu Reeves (Klaatu), Jennifer Connelly,
Jaden Smith, Kathy Bates, John Cleese
Estúdio: 20th Century Fox
12/12/2008 (EUA)

09/01/09 (BRASIL)


BOX OFFICE (atualizado até 18/01/09)

EUA - $78,781,466
Internacional -  $150.800,000
TOTAL - $229,581,466

SITE - JUDÃO

O FIM DOS TEMPOS (POR FÁBIO BARRETO)

Eles chegaram e a gente já era! Remake de O Dia em que a Terra Parou faz boas escolhas de elenco e roteiro para honrar um dos maiores clássicos da ficção científica.

Klaatu Barada Nikto é provavelmente uma das expressões mais conhecidas pelos simpatizantes da ficção científica. Embora seu significado não seja dos mais conhecidos, tudo isso deveria mudar com a estréia o remake de O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still), mas a frase é dita tão baixinho que quase passa batido. As presenças de Keanu Reeves, como Klaatu, e Jennifer Connely, como Helen, no elenco só ajudam a levar uma das melhores realizações do gênero a uma nova geração, que, goste ou não, tem colaborado para o inevitável fim da civilização.


A recriação de O Dia em que a Terra Parou levou 15 anos para ficar pronta e, por mais estranho que pareça, a decisão foi acertada. O maior desafio para o diretor Scott Derrickson (O Exorcismo de Emily Rose) e o roteirista David Scarpa era atualizar uma história irretocável sem torná-la banal ou desnecessária. Manter as motivações originais seria impossível, uma vez que o fantasma atômico não assombra mais o planeta assim como na década de 50 – o original foi lançado em 1951.

Ao contrário do que Zack Snyder vai fazer com Watchmen, O Dia em que a Terra Parou migrou todo o medo nuclear para a questão ambiental, algo que tem atraído a atenção de roteiristas de ficção e terror ultimamente. M. Night Shyamalan errou feio com The Happening, mas deu seus centavos sobre o assunto e Wall-E fez uma projeção negativa, porém, passível de salvação e final feliz. O que não acontece aqui. A vida humana precisa ser extinta para permitir a existência do planeta.

Klaatu (Keanu Reeves) chega à Terra e encontra o melhor comitê de boas-vindas possível: um bando de gente com medo e desesperada para não virar esqueleto frito como aqueles coitados em Marte Ataca. No comando da situação está Kathy Bates, uma linha dura preocupada com aspecto militar em vez de tentar descobrir a verdadeira razão da repentina visita alienígena. Muito do visto nesse roteiro reflete a falta de foco humana – especialmente dos norte-americanos - , sempre olhando numa direção e ignorando todas as alternativas seja do ponto de vista social, econômico ou, claro, ambiental.

A presença de Klaatu em si não deveria ser assustadora, mas a reação violenta ao personagem suscita a ativação do verdadeiro problema da história: Gort, um robô indestrutível capaz de exterminar a civilização rapidamente. O termo “problema” é o mais apropriado, afinal de contas, o verdadeiro vilão da história somos nós – responsáveis por colocar o planeta em risco.

Claro que há esperança em meio ao inevitável fim e é na bondade humana que devemos apostar para convencer Klaatu a nos dar uma segunda chance. A história pode parecer batida, mas ela deu origem a conceitos como Surfista Prateado, Leloo Dallas Multipass ou mesmo do recente O Grande Dave, de Eddie Murphy. O contato de Klaatu com Helen (Connely) e seu filho Jacob (Jaden Smith) é crucial para que o visitante entenda realmente do que somos capazes pelo aspecto positivo. John Cleese ajuda na brincadeira numa das melhores cenas do filme, ao travar um diálogo matemático com Klaatu.

O filme em si contém elementos dessa habilidade, pois, na era dos protestos na internet, o anúncio de sua refilmagem foi um dos poucos que não gerou revolta generalizada. Muito por conta das pessoas que assistiram à primeira versão serem muito mais amadurecidas que a nova onda responsável pelas bilheterias da atualidade e pela real necessidade daquele espírito da Era da Ouro da DC voltar às telas de Hollywood – e sem os figurinos mambembes, claro. Nesse caso, os estúdios foram sábios em trabalhar em algo com mais de uma geração de diferença, coisa que não acontece com as dezenas de remakes orientais da última década. Pode haver maior apreciação a essa nova versão de O Dia em que a Terra Parou justamente por seu grande distanciamento com o original, algo positivo nesse momento.

O roteiro de David Scarpa foi praticamente feito a quatro mãos com o diretor e apresenta muitas diferenças em relação ao original de Edmund H. North (Patton: Herói ou Rebelde?). Além do quesito nuclear que foi retirado, a personagem de Jennifer Connelly é totalmente diferente de sua primeira versão – uma cientista. Ela cumpre sua função sem momentos memoráveis, mas bem o suficiente para permitir a condução da trama. Aliás, ela acaba representando o público dentro do filme, pois compartilha muitos de nossos medos e esperanças e se vê num verdadeiro beco sem saída.

Jared Smith mais uma vez mostra capacidade para seguir os passos do pai e se atravessar a complicada transição dos atores mirins, pode ter seu lugar ao Sol por mérito próprio – afinal, paitrocinio não é tudo, como Tori Spelling bem sabe. Agora, bem que ele e a Dakota Fanning poderiam estrelar um filme no qual levam porrada toda vez que resolvem gritar ou dar piti. Haha. Um bom momento no longa-metragem acontece justamente quando Jacob lidera uma conversa com Klaatu. Conhecendo Reeves, não precisa de muito para acreditar que aquele garotinho seja capaz de deixá-lo sem jeito. Mas ele, assim como seu personagem, sabe lidar com crianças e mostrou grande carisma em Hardball – O Jogo da Vida.

Por falar em Reeves, ele está impecável e não podia cometer erros. Desde Matrix, o astro pensa num reencontro com o gênero que o consagrou. Depois da interpretação caricata em Street Kings, nada melhor que uma boa oportunidade para mostrar o que sabe para um público cativo. Seu bom momento anda lado a lado com a inovação em termos de efeitos especiais vistas em O Dia em que a Terra Parou. Comparar com os raios de Gort mostrados no primeiro filme com as gigantescas esferas destruidoras que surgem em diversos pontos do planeta é injusto, porém, ambas as escolhas fazem sentido dentro de seus momentos históricos.

Os raios laser eram literalmente coisa de outro planeta em 1951 e os “raios da morte” de Guerra dos Mundos estavam enraizados no gênero – e aterrorizariam as platéias dois anos mais tarde com o filme de Byron Haskin –, mas fariam pouco sentido hoje. Portanto, algo “de outro mundo” era necessário para garantir surpresa e causar medo. Como fugir de uma força tão destruidora e incontrolável? Felizmente, o roteiro não deu chances a uma solução militar ao estilo Independence Day garantindo credibilidade e evitando a mesmice.

O dilema é existencial. A ficção científica aborda situações definitivas nesse estilo como nenhum outro gênero cultural é capaz e o timing para esse reencontro de Klaatu com a Humanidade não poderia ser melhor. Muito se fala sobre responsabilidade ambiental, reciclagem e combustíveis renováveis, mas, notavelmente, mudanças relevantes só acontecem mediante situações tão relevantes quanto. A preocupação ambiental sempre é focada no legado que deixaremos para as próximas gerações, mas como reagiríamos se nossas vidas estivessem em jogo logo após você terminar de ler esse artigo ou quando terminar de assistir ao seu seriado predileto? Inevitavelmente isso acontecerá, porém, haverá uma frase secreta capaz de salvar a todos? Klaatu Barada Nikto pode não ser o suficiente.